quarta-feira, abril 19, 2006

Sobre a música de hoje dos últimos dias

Concordo com jonh Cage quando diz que a música é um emaranhado de sons. Essa busca ensandecida pela forma, em buscar sentido no que não tem sentido, são perguntas sem respostas, uma atitude muito religiosa. Parece que o medo da morte provoca pânico, os neurônios entram em choque e o corpo passa a viver numa realidade paralela, cheia de cataloguismo, etiqueta-se tudo e enfia o caos em gavetas.
O tempo nunca deveria ter deixado de ser contemplativo, vamos todos explodir e virar um monte de parafusos tortos, na verdade já somos um monte de parafusos tortos. Servimos pra quê? É isso que é tão difícil de entender, não servimos pra nada, não faz sentido buscar sentido no que não há sentido.
O homem vive uma constante busca, a música partiu quase do zero, pois o zero é tudo aquilo que não pôde ser explicado dentro da racionalidade, a música é o herói, está no meio de uma gigantesca batalha em busca de uma identidade, esperando um dia voltar pra casa com o peito carregado de medalhas, a música é a forma-sonata.
E para alguns nunca vai deixar de ser, porque na verdade verdadeira das coisas a expansão da tonalidade e essas experiências com novos materiais sonoros servem pra mostrar que evoluímos, nós seres humanos somos a evolução final das espécies. Vivemos num tempo em que só nos preocupamos com nós mesmo, o individualismo é a nova diretriz, mas ao mesmo tempo doamos órgãos, alimentamos os pobres famintos para provar que somos bons e queremos preservar a nossa espécie e no meio desse caos, o mundo cão cheio de guerras, nos aproxima mais de Deus, pois o apocalipse está próximo.
É muito comum se pensar muito e fazer pouco, na escolinha os macaquinhos são adestrados para entender, ouvir, catalogar, pensar música, principalmente pensar, pois a música deve ser pensada e não sentida, nada deve ser sentido. A sensibilidade tem deixado de existir, o homem de verdade é racional, virou um macaco e o mundo um circo.
Uma vez uma menina me perguntou se essa música do século XX era uma busca pelo primitivismo e isso me vez pensar que para a humanidade não há mais solução, pode até parecer muito pessimismo, mas na verdade isso nos liberta desse estigma de salvação da humanidade, a humanidade não deve ser salva, não existe humanidade, só seres.

Clara Guimarães
Texto de 2004
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