terça-feira, dezembro 06, 2005

Finalmente estou adentrando o mundo virtual das palavras, pensei muito se deveria ou não expor os meus pensamentos de passarinho falante para o mundo. Sinto falta de escrever, despejar os meus piados. Acabei de ver um filme chamado: "Nunca te vi, sempre te amei". Acho que faz algum tempo que algo não me tocava assim, não sei se é pelo fato de estar sozinha e com cólicas. Na verdade sei muito bem o que amar sem nunca ter visto, a sensação angustiante da espera por uma carta, principalmente por uma carta poética, as vezes como ensaio de estilo literário, sinto falta disso, mas ter perto também é delicioso, vou parar por aqui, cólicas me deixam romântica demais. Tenho pensado muito nas cores, cores vivas e vibrantes, verdes amarelados e azuis esverdeados. Estou muito verde ultimante. Sempre que vou dar as minhas aulinhas e pego aquele ônibus amarelo, fico me maravilhando pela janela, vendo o verde gritando lá fora e ouvindo o som da estrada, ou de alguma senhora que passa a viagem inteira a contar a mesma estória, geralmente estórias fascinantes de suas vidas medíocres, a briga que teve com um cobrador de ônibus... Na minha última viagem, achei que uma dessas senhoras devia ser um daqueles passarinhos neuróticos, que ficam cantando, cantando, cantando, cada vez mais alto, parece até que vai explodir, não chega a ser como o pássaro saci, mas quase... Uma senhora de meia idade, de cabelos curtos e encaracolados, que insistia em contar a sua brilhante jornada, havia brigado com um cobrador de ônibus no dia anterior. Tinha uma fala débil, parecia uma neurótica obssessiva, com olhos vidrados no vazio. O maior acontecimento de sua vida, a grande revelação de luta por sua sobrevivência: EU VENCI! O energúmeno cobrador queria cobrar uma passagem até Sante Cecília e ela morava um quilômetro depois do trevo de Warta, que segundo a própria foi registrado por um velocímetro de carro. Ela estava com o dinheiro contado da passagem R$ 2,19, mas o cobrador estava irredutível e a nossa heroína precisou tomar uma atitude: - mostre-me o seu crachá! vou anotar o número e seu nome, vou ligar para a empresa! Pronto tudo foi resolvido. Toda esta estória aconteceu em menos de um quilômetro e eu a ouvi repetidamente por uma hora. Achei impressionante a forma como ela dava um brilho, e contava cada repetição com mais emoção, até eu fiquei emocionada, mas não chorei, nunca vi um passarinho chorar, acho que não serei o primeiro.

Clara Guimarães

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

fiquei com inveja...me senti um amigo...juro...desses que deixam saudades

6:41 PM  

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